A cidade através das lentes

Por 13:34

Fotógrafos urbanos buscam registrar a vida na cidade, não só para melhor conhecê-la, mas também para que ela seja conhecida.

Da janela do ônibus, é possível ver pessoas correndo, andando, sentadas, seguindo seus caminhos pela cidade. Árvores caídas, postes e poças, grandes poças de água de chuva. Meninos descalços, parados embaixo de alguma sacada. Sorrisos, brigas e reencontros. A situação descrita é corriqueira para quem experiencia a vida urbana cotidianamente, mas nem sempre é notada. É muito mais fácil perceber os detalhes da cidade, quando se quer registrá-los, fotografá-los. Esse é o caso da jornalista Thaiana Gomes, que aposta na fotografia urbana como um meio de descobrir a cidade e seus cidadãos.

Sempre interessada em fotografia, Thaiana pôde estreitar essa relação na faculdade de Jornalismo, onde participou de grupos de foto e aprendeu a manusear uma câmera profissional.  “Atualmente, a fotografia representa para mim um grande prazer. É algo que faço sem cobrança; faço porque é especialmente revigorante, além de eu poder compartilhar as imagens com muitas pessoas”, conta.

Com uma câmera profissional ou com um celular, Thaiana vive atenta aos detalhes da vida urbana. Como resultado dessas experiências, a jornalista elaborou a exposição “Nu: Poéticas da Cidade”, realizada no início deste ano.  Ela selecionou uma série de fotografias feitas sempre dentro do ônibus e pelo celular, que registram alguns fragmentos da cidade. “A intenção foi dividir a minha experiência, mostrar para a população como a cidade pode ser descoberta em mínimas partes”, explica a jornalista.

Quem também aposta na fotografia urbana como forma de conhecer a cidade é o fotógrafo Syã Fonseca. “A fotografia, para mim, não é só meu ganha-pão, é uma ferramenta que me permite conhecer pessoas e costumes, vivências que eu não teria e descobrir e entender melhor o meio em que vivo”, conta. Ele começou com uma câmera analógica, aos 15 anos, por influência de seu pai que também é fotógrafo.

Recentemente, Syã deu início a um projeto voltado exclusivamente para a fotografia urbana de Vitória, o Street Photo Ilha. “A fotografia de rua ainda é um viés pouco explorado em Vitória e ainda não existe uma produção coletiva que caminha nesse sentido”, afirma. O objetivo é juntar pessoas que compartilham da mesma inquietação fotográfica, a fim de que as produções individuais sejam consumidas e experienciadas de maneira coletiva.

Para Syã, sua relação com a cidade se transformou quando passou a fotografar a rua. Afinal, andar com pressa pela cidade é muito diferente do que andar com uma câmera na mão, atento aos detalhes. “Uma simples caminhada se torna uma viagem onde se aprende muito sobre pessoas. Para a maioria dos transeuntes, a rua é lugar de passagem para se chegar a um destino, enquanto que para um fotógrafo de rua, ela se torna o próprio destino”, afirma.

A cidade e sua rotina é, também, alvo das lentes do fotógrafo Gabriel Lordêllo. Como Syã, Gabriel foi inicialmente influenciado pelo pai, que era fotógrafo amador e fotoclubista. Porém, foi na faculdade de jornalismo que a atividade se tornou sua profissão. “A fotografia hoje é tudo na minha vida, minha profissão, meu sustento, meu hobby e minha paixão. Costumo dizer que sou fotógrafo 24h por dia”, conta Gabriel.

Para ele a fotografia transforma o olhar e torna notável tudo o que antes passava despercebido, já que a qualquer momento pode surgir uma boa imagem. Encantado pelo cotidiano da cidade, Gabriel busca capturar a simplicidade das pessoas, da forma mais natural possível. “As pessoas simples não têm um desejo de ‘aparecer’, por isso elas se mostram como são. Isso é difícil em nossa sociedade”, explica. A cultura e o folclore, também, são temas que Gabriel gosta de registrar. Ele acredita que através da fé e das crenças populares é possível aprender mais sobre o passado.

Mas a fotografia não é apenas lazer na vida de Gabriel, é também seu ofício, sua profissão. “Fotografar com uma pauta é diferente do que sair livremente, sem compromisso. Quando temos uma pauta, vamos em busca de algo específico, e fazermos nosso melhor para capturar imagens que representem bem o assunto solicitado. Quando saio para fotografar livremente, vou em busca do que a cidade tem para me mostrar”, explica.

A cidade em constante transformação
Os caminhos são inúmeros para os amantes da fotografia urbana, com as surpresas diárias que a cidade traz. As pontes, os becos, as ruas sempre nos levam a diferentes lugares, a diferentes histórias e pessoas. O caminho é longo para quem quer, verdadeiramente, conhecer a cidade. Para alguns fotógrafos urbanos, o mais fascinante da metrópole é a sua capacidade de viver em constante transformação.

É isso o que encanta a jornalista Thaiana e a estimula a continuar capturando os cantos da cidade. “A metrópole é, também, provocante, tudo muda muito rápido, você tem contato com mundos diferentes dentro de um mesmo lugar. Há na cidade muitas possibilidades e é isso o que mais me faz querer continuar fotografando”, afirma. O fotógrafo Syã também observa essas mudanças e vê, na fotografia urbana, uma maneira de registrá-las. “A cidade é um lugar onde a transformação cultural é diária, o rolo cotidiano passa por cima de muitos detalhes e costumes que acabam se perdendo no tempo e caindo no esquecimento”, explica.

Da mesma forma, Gabriel considera como uma função da fotografia fazer esse registro histórico, permitir que sejam lembradas certas épocas ou histórias. “Quando fotografamos cenas de rua de uma cidade estamos eternizando seus costumes e características de um momento vivido. Essas imagens, quando vistas, 50 anos à frente, vão mostrar o quanto as coisas mudaram”, afirma o fotógrafo.

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