A poética do sagrado no novo livro de Waldo Motta

Por 14:16

“Terra sem Mal” será lançado nesta quinta-feira (12), às 19h, em Vitória. Entrada franca

Um dos grandes nomes da poesia brasileira, Waldo Motta lança seu mais novo livro, chamado “Terra sem Mal”, nesta quinta-feira (12), a partir das 19h, na Associação de Docentes da Ufes (Adufes), em Vitória. A entrada para o evento é gratuita e, na ocasião, a obra estará à venda pelo valor de R$35.

Dando sequência ao trabalho que desenvolve desde “Bundo e outros poemas” (1996) – a que alguns chamam de escrita religiosa e homoerótica – o poeta reúne, em seu novo livro, textos acerca do sagrado, do lugar sacro. E o faz utilizando linguagens e formas diversas, a partir de pesquisas científicas e culturais.

“A minha poética é a poética do sagrado. Então, não tem uma decisão. Eu trabalho isso há muito tempo. Eu estou simplesmente expandindo, explorando mais a temática, ampliando, aprofundando a coisa. Porque é um campo vasto, sobre o qual quase nada ou praticamente nada se conhece. É um campo vastíssimo. Nem em 10 mil vidas seria possível esgotar esse tema, simplesmente, pelo fato de que o sagrado está ligado a todas as coisas, a todos os problemas. Podemos dizer que todos os problemas do mundo se devem ao desconhecimento do sagrado”, explica o poeta.

A poética do sagrado
Entre as diversas definições apresentadas por dicionários, sagrado é o que se diz “de uma coisa em que não se deve mexer ou tocar; que não se deve infringir; inviolável”. Ou seja, separada. E Waldo Motta diz mais sobre o termo: para ele, o sagrado é uma zona proibida ao conhecimento humano, sobre o qual não se pode falar, nem comentar.

“O mundo é muito engraçado. Existe um universo paralelo, uma dimensão oculta, onde a verdade se revela. Chegar lá, por qual fechadura, por qual porta a gente chega a esse universo paralelo. Esse que é o problema. Mas eu Waldeusa, eu Jeowalda, descobri esse caminho. Esse caminho é o cu. Sabe por quê? Porque sagrado – eu vou à raiz das coisas, eu descubro tudo, graças a deus – vem de sacro que é um osso junto ao Cóccix, na ponta da coluna vertebral. O Cóccix, em varias culturas, é a morada do sagrado, é a morada do divino”, afirma Waldo.

E é aí que está a importância do trabalho de Waldo, um poeta marginal que dá um tratamento elevado ao que a sociedade comumente considera baixo e despreza. Ao mesmo tempo, seus textos não se prendem a nenhuma forma poética, pelo contrário, é como se Waldo tivesse criado sua própria corrente estética.

Poesia quântica
“Eu sou multiforme. Eu trabalho a forma de acordo com minha necessidade, minha intenção, o que eu quero dizer. Para mim, de acordo com a minha poética, o conteúdo de certo modo tem que corresponder à forma. Não pode, no meu ponto de vista, haver uma relação arbitrária entre conteúdo e forma. [...] Eu não sou desses poetas que coloca a forma em primeiro lugar. E eu não me filio a corrente nenhuma, muito pelo contrário: eu criei a minha corrente estética. Eu criei o que chamo de poesia quântica, ou física das partículas verbais”, conta o escritor.

Como forma de aproximação – e também deboche – em relação à física quântica, Waldo trabalha, em sua literatura, com gráficos, simetrias e com o que ele chama de matemática exata. Trata-se de uma espécie de reengenharia das letras e dos fonemas. A letra seria a menor parte, o átomo, que, combinada com outras sílabas e palavras, formam organismos maiores. Exemplo disso, são os poemas anagramáticos produzidos pelo poeta.

MENSAGEM ENCONTRADA EM MARTE
MARTE
ERA
TERRA
E A
ARTE
ATRA
ERRA
E A
RATA
MATA
AR E
MAR EM
MARTE
(*Texto retirado do blog http://waldomotta.blogspot.com.br/)

“Então, eu trabalho nesse nível quântico da linguagem, encontrando uma ordem secreta. Mensagens ocultas. E essas mensagens ocultas quase sempre falam do cu, de erotismo anal. Principalmente palavras do jargão teológico. Por exemplo, a palavra ‘messias’, em hebraico, contém informações anais, erotismo anal”, afirma Waldo.

Talvez, por isso, a pesquisadora Iumna Saimon – que organizou, ao lado de Berta Waldman, o livro “Bundo e outros poemas” em 1996 – diz: “A alta voltagem da poesia de Waldo Motta foge aos enquadramentos usuais da literatura brasileira”.

Dia Municipal contra a Homofobia
O livro “Terra sem Mal” será lançado na Adufes, em Vitória, nesta quinta-feira (12), no Dia Municipal contra a Homofobia. A data foi instituída no calendário do município em 2013, como uma homenagem ao primeiro grupo criado no estado em defesa dos direitos homossexuais, o Triângulo Rosa – fundado em 12 de março de 1990.

A iniciativa de realizar o lançamento nesta data foi do próprio poeta que, com Amilton de Almeida, ajudou a fundar o grupo na década de 90. Sobre a homofobia, Waldo deixa seu protesto: “Pessoas enfurecidas, mal informadas, que pretendem estar agindo em nome de Jesus perseguindo homossexuais, eu ouso dizer, que eles são a própria besta do apocalipse. Porque besta é sinônimo de estúpido, de ignorante, de animal, de seres irracionais ou dotados de pouco raciocínio”, diz o poeta.

O evento de lançamento é uma realização da Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos (Semcid), por meio da Coordenação de Políticas de Promoção para a Diversidade Sexual, em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com aEditora Patuá, com o Cineclube Espírito Santo Diversidade e com o Coletivo de Diversidade Sexual do Sindiupes.

Sobre o autor
Waldo Motta nasceu no dia 27 outubro 1959, em Coroa da Onça, no interior de São Mateus e hoje é morador de Vitória. Pesquisa e ensina sobre símbolos, mitologia, numerologia, cabala, literatura, além de hebraico, guarani e outras línguas. Entre suas obras estão “Eis o homem” (FCAA-Ufes, 1987), “Poiezen” (Massao Ohno/Ufes, 1990), “Bundo e outros poemas” (Unicamp, 1996), finalista do prêmio Jabuti 1997, “Recanto - poema das 7 letras” (Ímã, 2002) e “Transpaixão” (Edufes, 2009, 2. ed.), leitura obrigatória para o Vestibular da Ufes, 2010-2012.

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