Entreturnos: um subúrbio à brasileira

Por 13:42

A estreia do longa-metragem acontece no Festival de Vitória – 21º Vitória Cine Vídeo, nesta sexta-feira (12), às 21h, no Theatro Carlos Gomes

Tempestade. Esse é o apelido dado carinhosamente pelo cineasta Edson Ferreira ao seu pequeno caderno, companheiro diário, no qual anota suas ideias, sentimentos e experiências cotidianas. Foram das folhas de “tempestade” que saíram as impressões necessárias para a construção do roteiro do filme Entreturnos, sua mais nova produção. O longa-metragem estreia dentro da programação do Festival de Vitória – 21º Vitória Cine Vídeo, nesta sexta-feira (12), às 21h, no Theatro Carlos Gomes.

“Quando algo me chama a atenção, vou lá e escrevo. Muitas dessas impressões surgiram de dentro de um ônibus, meu principal meio de transporte. Comecei a perceber aquele universo: de um lado, o trabalho (quase invisível) de motoristas e cobradores, por vezes mal  compreendidos ou desumanizados – quase nunca ouvem um ‘bom dia’ do passageiro. De outro, as centenas de pessoas de diferentes classes sociais e seus hábitos: falam alto, reclamam, riem, choram, xingam, confessam coisas por vezes surreais ao colega ao lado ou ao telefone. Há muita riqueza em tudo aquilo”, conta Edson.

O filme conta a história de Beto, interpretado por Paulo Roque, que trabalha como cobrador de ônibus e é casado com Gilda, personagem de Janaína Kremer. Quando Beto se aproxima de Leia (Lorena Lima), dona do bar que ele frequenta, conhece Valcir, papel de Luis Miranda, um estrangeiro recém-chegado na cidade que vai completar o triângulo amoroso. A relação entre os três resulta em uma gravidez – tão esperada pelo casal.

“O personagem do Beto nasceu assim, a partir de um olhar observativo da vida que passa. Da mesma forma a Gilda, mulher do Beto, que é caixa de supermercado. Assim como os cobradores, esse público por vezes passa despercebido por nós, mas são pessoas ricas em experiências e sensibilidade. [...] Entreturnos fala de personagens comuns, palpáveis, de uma cidade que cresce a cada dia, caoticamente”, afirma o cineasta.

Elenco e direção
Edson, além de roteirista e produtor de Entreturnos, foi diretor do filme. Essa é sua estreia como diretor de um longa-metragem, porém seu envolvimento com o audiovisual começou há dez anos.  “Ouvi de um amigo: ‘o primeiro longa é um batismo de sangue’. De fato, é. Ainda mais uma produção como o Entreturnos, de roteiro complexo, orçamento apertado, locações muito específicas e um elenco nada pequeno – o que se mostrou bem diferente do que a produção de um curta”, afirma. Para o cineasta, os arranjos e as escolhas envolvidas na produção de um longa-metragem são mais elaboradas, em comparação à realização de um curta. “Não que o curta seja mais fácil (aliás, ‘fácil’ é uma palavra que não existe em cinema!), mas um longa tem uma carreira diferente e se projeta para outros horizontes. Tudo em um longa é maior: desafios, decepções e sucessos!”, afirma.

Como diretor, ele trabalhou com um grande elenco, que contou com as participações especiais de Milhem Cortaz e Guti Fraga. “A escolha do elenco parte de um olhar feito, em alguns casos, ainda quando se está escrevendo o roteiro, como foi o caso do Valcir, personagem do Luís Miranda. Desde o início eu não conseguia pensar em outra pessoa para interpretá-lo. Os diálogos foram escritos pensando na maneira como ele atua”, conta Edson. Da mesma forma, aconteceu com o personagem Cardoso, interpretado por Milhem Cortaz. Segundo o cineasta, apesar de ter feito muitos testes para o papel, a presença do ator falava mais alto.

“Os personagens Beto e Leia foram os primeiros que escolhi e partiram de trabalhos anteriores com o Paulo Roque e a Lorena Lima. No caso da Janaína Kremer, eu havia assistido a praticamente todos os filmes dela com o Jorge Furtado e vi que ela seria, sem dúvida, a melhor pessoa para a Gilda. Além deles, Tayana Dantas, Fabíola Buzim, Marcus Konká e o elenco de apoio, cada um tem uma história particular de encontro e parceria. São pessoas que, com o passar do tempo, vão se tornando muito próximas e importantes”, conta. E afirma, ainda, que a vida no set se tornou mais do que um ambiente de trabalho, uma experiência de encontros, emoções, lutas, erros e acertos. “Eu me sinto muito privilegiado em ter trabalhado com uma equipe tão ímpar”, diz.

Uma grande escola de troca
Edson é cineasta e já trabalhou em diferentes áreas de uma produção audiovisual, como roteiro e direção. Mas ele tem, também, experiência nos palcos do teatro e, por isso, consegue tratar de forma singular os atores que dirige. “A principal vantagem de ser ator é poder olhar para os outros colegas de forma mais especial. Atores precisam ser bem cuidados, pois, no fim das contas, são eles que irão colocar sua cara a tapa”, afirma. Como consequência de entender o papel do ator na trama, o cineasta convidou o ator e diretor de teatro Guti Fraga para realizar a preparação do elenco de Entreturnos.

“Muito se tem falado nisso, pois é algo em voga no cinema nacional contemporâneo e que, até, parece ter virado modismo ou estar sendo mal interpretado por quem não entendeu os mecanismos. O que o Guti Fraga – que foi preparador do Entreturnos e também do Sombras do Tempo, meu curta anterior – faz é dar condições ao elenco, por meio de exercícios e trocas, uma disponibilidade necessária para desempenhar aquele papel. É um trabalho livre, sem imposições, sem obrigações”, explica Edson.

O cineasta colocou no mesmo set atores experientes e, também, aqueles que estão ainda começando e que desejam crescer. Por isso, afirma que procurou fazer dessa produção “uma grande escola de troca”.

A vida no subúrbio
Resultado das experiências e impressões de Edson com a vida na cidade, o enredo deEntreturnos busca retratar, de forma realista, o cotidiano da periferia e é capaz de levar o espectador a refletir sobre questões sociais e morais que envolvem a classe operária brasileira.

“O filme toca em vários paradigmas, hoje, discutidos na sociedade, como os novos arranjos familiares, a questão da homossexualidade, do papel da mulher, da violência urbana, tudo isso formando uma amálgama em um cenário suburbano à brasileira. No fundo, o que está em jogo são os relacionamentos afetivos e até que ponto os personagens estão dispostos a manter firmes seus desejos e intenções. Procurei manter a densidade dessas relações sem lançar mão de um discurso maniqueísta ou fatalista”, afirma Edson.
 
“O desejo de contar novas histórias, ter novas experiências e possibilidades”
É a resposta de Edson para a seguinte pergunta: o que te motiva a continuar a carreira no audiovisual aqui no Espírito Santo? Esse desejo foi forte o suficiente para que o cineasta buscasse diversas formas para viabilizar financeiramente seu projeto. Entreturnos foi produzido com recursos do Fundo de Cultura daqui do estado, sob a produção da Patuléia Filmes e da Filmes da Ilha, com co-produção de Canal Brasil e Titânio Produções. O filme ainda conta com o patrocínio da Prefeitura de Vitória, por meio da Lei Rubem Braga de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Arcelor Mittal e da Universidade de Vila Velha.

“Já passei pela experiência com projetos no budget [‘sem orçamento’, em tradução livre], que no fim das contas acaba sobrando para o bolso do produtor/diretor. O edital da Secult é uma conquista nossa e que tem injetado um gás nos artistas capixabas para realizarem seus projetos de forma mais tranquila e profissional. O modelo implantado pela Secretaria ainda requer refinamentos, mas temos avançado. O edital de longa, por exemplo, dobrou o valor do prêmio desde que foi implantado, de 500 mil para um milhão, o que é muito bom. Sem contar que seu formato não traz toda aquela burocracia na prestação de contas. Se há algo que eu possa chamar de desvantagem seria o fato de os mecanismos de incentivo em nível nacional serem mais elaborados e isso nos acomodar um pouco. Por mais que os editais sejam ótimos, não é suficiente ficar confinado apenas nesse universo. O Espírito Santo já vive um momento em que apenas a aprovação de um único projeto de longa anual é pouco”, afirma Edson.

Estreia
O longa-metragem Entreturnos estreia na programação da 4º Mostra Competitiva Nacional de Longas, do Festival de Vitória – 21º Vitória Cine Vídeo, nesta sexta-feira (12), às 21h, no Theatro Carlos Gomes. Clique aqui e confira a programação completa do Festival.

“Estamos naquela fase de inscrições em festivais nacionais e internacionais e aguardamos o resultado das seleções. Por hora, além do VCV, o filme será exibido em uma mostra não-competitiva no Fecin, em Muqui, no mês de novembro”, conta.

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