Literatura erótica é tema do espetáculo “A Casa Escura”

Por 14:14

A peça estreia nesta semana em Vitória, com apresentações na quinta (29), sexta (30) e sábado (31), às 20h30. A entrada é gratuita

Um espetáculo. Seis atores em cena dão vida ao drama de Bernadet Bordon, uma personagem dentro da própria ficção. O cenário é uma casa, uma casa de sexo. Lá, desejos, medos e também o olhar do escritor que criou Bernadet vêm à tona, em uma experiência sensorial aberta somente a 20 espectadores por apresentação. “A Casa Escura”, com direção e dramaturgia de Paulo Sena, estreia nesta semana em Vitória, com sessões nesta quinta (29), sexta (30) e sábado (31), sempre às 20h30.

“Espero que sintam tesão”, afirma Paulo Sena sobre o espetáculo. Além de desejo, o diretor torce ainda para que o público sinta as dores e as alegrias que as personagens passionais de “A Casa Escura” vivem. “Bernadet Bordon é uma ficção de um personagem que também é ficcional, mas pode ser a vida de muita gente e isso tem que ser degustado, respeitado ou simplesmente ouvido, relembrado ou assistido. [...] Se sairmos com a sensação de que nossos desejos foram revisitados já me dou por satisfeito”, diz.

Na peça, um escritor revisita sua literatura pornográfica, revendo suas próprias experiências e fantasias sexuais. O espetáculo é uma realização do Grupo Beta de Teatro, em parceria com a CabeloSeco Soluções Culturais, e tem tutoria do renomado dramaturgo carioca Jô Bilac, consultoria artística de Gilberto Gawronski, preparação vocal de Babaya e preparação corporal de Tomaz de Aquino.

Direção e elenco
A pesquisa cênica em torno do sexo e da literatura pornográfica e erótica começou há dois anos, quanto o Grupo Beta de Teatro convidou Paulo Sena para construir a dramaturgia do espetáculo. Para ele, dirigir seu próprio texto foi um desafio enorme e uma experiência incrível. Enquanto supervisionava a montagem da peça, ele precisou se desapegar de seu papel como autor e deixar que os atores reinventassem seus personagens.

“Um novo olhar teve que ser colocado para que as tramas e a história de Bernadet fossem contadas da melhor forma possível, respeitando a dramaturgia construída, mas também ouvindo os atores e a minha assistente de direção Lorena Lima, em um processo colaborativo, que é o pensamento base e metodológico da companhia”, conta o diretor.
O elenco, formado por seis atores, apresenta uma novidade: o intercâmbio com profissionais de outros grupos de teatro capixabas. Nesse processo, diferentes formações e visões do fazer teatral se reuniram para dar vida ao espetáculo “A Casa Escura”. E quem teve que canalizar tudo isso, é claro, foi o diretor Paulo Sena.

“Arrumar todos esses fazeres, esses olhares, essas histórias, me fez entender o quão complexo é o universo do ouvir, do compartilhar, do organizar, do dirigir e do permitir. Uma escola viva, onde o processo de trocas foi intenso. As pessoas que passaram por esse projeto nos fizeram enxergar as melindres do projeto. A troca com os profissionais que apelidamos de estrangeiros foi ímpar nessa construção de equipe, de grupo e o espetáculo se tornou orgânico e familiar”, conta.

A Casa
O espetáculo, cujo enredo se desenvolve em uma casa de sexo, também será realizado dentro de uma casa localizada no Centro de Vitória. Trata-se do Ateliê Casa Aberta, de Stael Magesck, que permitiu que seus cômodos e paredes se transformassem na casa escura criada por Paulo Sena.

“Eu queria uma casa mesmo. Paredes, portas, cozinha, fiação e calores. Uma experiência sensorial onde a Bernadet pudesse estar conectada não apenas com os frequentadores da casa de sexo, mas com o chão, com a escada, com os defeitos da casa, com os cheiros, com o teto. Tudo teria que ser importante e a Casa da Stael apareceu, quase que sem querer, e se tornou o espaço apropriado para vivenciarmos as histórias daquele escritor maldito”, afirma o diretor.

Nesse sentido, a casa deixa de ser só locação para também se tornar cenário e personagem da peça, já que a relação dos atores com casa influenciou na construção e reconstrução da dramaturgia para aquele local.

“A casa já tem muita informação que em parte nos apropriamos, mas a direção de arte, assinada pelo Emerson Evêncio, potencializou outros pontos sugeridos pela dramaturgia. Os cômodos, as limitações, a luz, a arquitetura e as texturas da casa foram maquiados, assim como uma puta quando está prestes a fazer um novo programa. Dando o tom necessário para tornar tudo mais real, mais crível”, afirma Paulo.

Estreia
“A Casa Escura” foi contemplada, em 2013, nos editais “Bolsa dramaturgia” e “Residência artística de teatro”, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult). E foi assim que o grupo conseguiu custear todos os gastos para a construção do espetáculo.

A estreia acontece nesta semana, com apresentações na quinta (29), na sexta (30) e no sábado (31), às 20h30. A entrada é gratuita e os ingressos devem ser retirados uma hora antes. Serão liberados apenas 20 lugares por sessão. Segundo Paulo, após a estreia, existe a intenção de voltar a pôr o espetáculo em cartaz, porém é preciso pensar em novas formas de custear as apresentações.

“Agora é um novo passo que se inicia. O pensamento libertário sobre os editais de cultura é uma constante em nossas reuniões de grupo, mas também é inegável que existe o aluguel do espaço, o cachê, a manutenção dos equipamentos de arte, do som, da luz, dos figurinos e outros boletos a mais de produção. Mas acreditamos que o espetáculo sobreviverá a tudo isso e em breve estaremos dando outra entrevista aqui afirmando que o espetáculo continua. E vai ser o mais breve possível. Com ou sem edital”, diz.

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