No mundo da gastronomia, o que é gourmet?

Por 14:12

Chefs e especialistas comentam sobre alta cozinha e o efeito “gourmetizador” que tem atingido diversos cardápios

No idioma francês, a palavra “gourmet” é usada para se referir a pessoas que sejam conhecedoras da chamada alta cozinha, que designa produtos feitos com ingredientes de qualidade e apresentação criativa. No Brasil, é comum que o termo seja utilizado como um adjetivo para pratos ou bebidas feitos de uma maneira mais refinada ou especializada. Mas todo o prato que recebe o título de gourmet é, realmente, gourmet?

Dona da confeitaria Le Petite Docerie, que trabalha com bolos e doces especiais, Eduarda Morandi chama de “gourmetização” essa prática que leva pessoas e estabelecimentos a se utilizarem do termo para cobrar preços abusivos.

“Hoje em dia, o gourmet ganhou uma conotação tão negativa que a gente fica até com medo de se dizer gourmet, né? Mas creio que alguns produtos [da Le Petite Docerie] são sim. Não nos utilizamos desse título para chamar público, nem para justificar valores abusivos, mas, sim, somos uma confeitaria gourmet, porque saímos do tradicional. Inovação e qualidade de ingredientes é palavra de ordem”, afirma Eduarda.

Em muitos casos, os produtos gourmets possuem um preço mais elevado por contarem com ingredientes mais sofisticados em suas receitas, além, é claro, de serem elaborados com base em um conhecimento mais especializado. Para a consultora gastronômica Isaura Caliari, alimentos gourmets são aqueles feitos com ingredientes de vanguarda, ou seja, especiais.

“Um prato apresentado de forma contemporânea e com bons produtos. Quer dizer, ele tem todos os requisitos. Bons produtos, nova apresentação. E os ingredientes têm que ser considerados bons. Por exemplo, tem que ser uma carne boa, não necessariamente uma carne de primeira, mas a carne indicada para fazer aquele produto. Por isso, envolve cultura, conhecimento”, afirma Isaura.

Mas, para Eduarda Morandi, não basta que um produto seja feito com ingredientes de qualidade, é preciso que seja algo criativo. “Creio que além de ingredientes de qualidade, tem que ser algo diferente, inusitado, criativo, mesmo que tenha partido de algo muito tradicional, para além do tão amado chocolate belga, tem que conter uma inovação e criatividade”, afirma.

Quem também considera seus produtos gourmet é a chef Carol Cicone, dona do food truck Hasta la Pista, mesmo que não apresente o termo no nome da marca. O trailer comercializa sanduíches especiais, com ingredientes diferenciados, como ossobuco com pesto de agrião e mostarda oriental ou cordeiro com maionese de wasabi e hortelã.

Para Carol, os alimentos gourmets não precisam, obrigatoriamente, apresentar altos preços. “Gourmet seria um conceito diferenciado e qualificado. A meu ver, não tem que necessariamente ser um produto muito caro ou inacessível, mas sim elaborado de uma maneira diferente, inovadora e com uma boa apresentação”, afirma a chef.
 
Raio Gourmetizador 
Em 2014, foi criada uma página no Facebook para brincar com a banalização que ocorreu, nos últimos tempos, do uso do termo “gourmet”. Com mais de 70 mil curtidas, a página mostra como produtos e pratos cotidianos ficariam após serem atingidos por um “raio gourmetizador”, mudando apenas o nome e o preço.

Eduarda Morandi reconhece que exista essa prática de cobranças de altos preços por produtos que, nem sempre, são mesmo gourmets. “Não acho que a gourmetização teria sido um problema se os valores dos produtos não tivessem ficado tão altos. Acho até que foi algo bom, foi ‘um surto’ de criatividade que levou muita gente a fazer coisas muito bacanas. [...] O maior problema, pra mim, é o número de pessoas que se utilizam disso para tentar ganhar e justificar preços que não têm justificativa”, diz.

Em alguns casos, estabelecimentos e lojas usam o termo apenas como uma forma de chamar atenção do consumidor e, ainda, aumentar o preço dos produtos. “Se usam o nome e não estão fazendo nada, o produto na verdade não é um produto bom, então não estão sendo corretos. A pessoa que colocar esse nome, ela tem que ter alguns requisitos. Senão, ela está banalizando o termo”, afirma a consultora Isaura Caliari.

A chef Carol Cicone também acredita que exista essa banalização do termo gourmet em vários estabelecimentos. E complementa: “É uma pena, porque pode-se fazer, de verdade, um produto gourmet sem precisar supervalorizar o preço. Mas esses estabelecimentos têm que ficar ligados, porque o consumidor está cada vez mais atento e percebendo e diferenciando o verdadeiro produto gourmet do ‘raio gourmetizador’ (risos)”.

0 comentários