Perfil: Edson Papo Furado

Por 13:12

Foto: Inglydy Rodrigues

Simplicidade, alegria, carisma e paixão pela música fazem parte dessa figura que já é uma referência para o samba capixaba.

Nascido e criado no Espírito Santo, Edson Papo Furado tem 74 anos de muita experiência e vive há mais de 60 anos em Vitória. Além disso, ele é o intérprete oficial da mais antiga escola de samba do município, a Unidos da Piedade. Aos nove anos, mudou-se da Serra para o bairro da Piedade, no Centro de Vitória, onde se envolveu com o Bloco Amarra o Burro. Foi desse agrupamento que surgiu, em 1955, a escola de samba da qual Papo Furado faz parte. “A Escola de Samba pra mim é a minha casa, é como a minha família”, afirma.

Durante 42 anos, viveu ao lado da sua primeira esposa, já falecida, a qual, em entrevista, chamou de “verdadeira”. Teve tantos filhos que perdeu as contas, mas garante ter oito bisnetos e já espera mais um. Atualmente, vive com Alice há pouco mais de 10 anos e, sobre isso, diz: “uma panela seca não cozinha”.
Quem conversa com Papo, como muitos de seus amigos carinhosamente o chamam, por pelo menos uma hora, já consegue perceber a simplicidade com que, alegremente, leva sua vida. Papo Furado viu crescer muitos dos instrumentistas da Unidos da Piedade e, com orgulho, afirma: “nossa cultura não deixa criança na rua”. Para ele, o estímulo ao estudo e à busca da sabedoria se dá, também, por meio da música e do ensino do samba.

Quando está cantando, confessa que, às vezes, esquece a letra. “Mas tem músicas que me lembram de coisas e eu começo a chorar”, diz. Mesmo com quase seis décadas atuando no samba, Papo não pensa em se aposentar da música e, com uma metáfora, resume o que sente: “enquanto estiver úmido, existe água ali”.

Ele é uma personalidade conhecida no Centro, de quem muitos se sentem honrados em conhecer. No bar, pessoas dentro ou fora dos carros o cumprimentam, gritam seu nome e, alguns, intimamente, dizem: “É tudo papo furado!”. Não anda sem sua bengala, sem seus óculos que não servem para muita coisa – pois quase não enxerga – e sem sua mochila com toalhas coloridas e um abridor de latas que tira gargalhadas das pessoas para quem ele ousa mostrar.

A origem do seu apelido não poderia ser diferente: vem do samba. Ele conheceu a música “Mudando de Conversa”, composição de Hermínio Bello de Carvalho, por meio de um radinho de pilha. A canção traz a seguinte estrofe: “Mudando de conversa onde foi que ficou / Aquela velha amizade / Aquele papo furado todo fim de noite / Num bar do Leblon”. Após conseguir tocá-la com o violão, ele contava a novidade aos amigos, sempre que os encontrava nos bares. Volta e meia, pediam repetidamente que tocasse “aquela do papo furado”. Nesse jogo de palavras, acabou sendo chamado de Papo Furado e faz questão de deixar claro que Edson é apenas seu codinome.

No carnaval, ele diz que começa os dias cantando os versos iniciais da popular canção de Luiz Bonfá e Antônio Maria, “Manhã de Carnaval”, que dizem “Manhã, tão bonita manhã / Na vida, uma nova canção”.  Com a ajuda das filhas, veste-se de mulher, coloca peruca, manda fazer um salto alto e se diverte com o samba das festas. E quando lhe dizem “Você é um velhinho bem vagabundo”, ele responde, sinceramente, “Graças a Deus!”.

Papo diz querer viver até os 202 anos, porque quando estivesse com 200, teria mais dois anos para fazer tudo o que quisesse. E, apaixonado, declara-se “O samba é a minha cachaça, meu fortificante. Sem isso não dá pra mim”.

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