Projeto incentiva a leitura através de oficinas literárias

Por 14:10

Criado por Yan Brandemburg, o Semear Palavra é um projeto que compreende a realização de oficinas literárias, eventos de incentivo a leitura e de divulgação da Literatura

Quando nasce o prazer pela leitura? E pela escrita? Com foco, justamente, na criação literária e nos processos que a envolvem, Yan Brandemburg criou o projeto Semear Palavra, uma plataforma cultural que compreende a realização de oficinas literárias, eventos de incentivo a leitura e de divulgação da Literatura.

Escritor e professor, Yan é também mestrando em Estudos Literários da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Assim, a ideia para criar o projeto Semear Palavra surgiu a partir de seus estudos acadêmicos, já que a sua dissertação tem como objeto central as Oficinas Literárias.

“Acontece que me entusiasmei com o assunto, fiquei apaixonado em falar sobre criação literária. E vi que era possível colocar tudo em prática. Aliás, odeio estudar algo que não possa aplicar. Já vinha dando palestras sobre poesia, sempre a convite de amigos, para alunos que cursavam o Ensino Médio. E dava muito certo. Eu tinha aquela pegada de declamar poesia (sempre usava A bunda, que engraçada de Drummond) e conseguia prender a atenção da garotada por quase uma hora e meia”, conta Yan.

Com o tempo, tudo foi tomando forma. Ele buscou textos de referência na área e criou sua própria metodologia para as oficinas. Nelas, Yan prefere construir um ambiente diferente das aulas usuais, principalmente, quando são ministradas para estudantes dos ensinos Fundamental e Médio. A ideia é que os alunos possam passear pela teoria literária através da prática.

“Fazemos, sim, leitura de poesias, mas o objetivo é que eles mesmos produzam algo no final. O aluno torna-se mais ‘produtor’ do que ‘receptor’. A crítica ocorre a partir do texto do aluno, e não em autores consagrados. [...] Não quero substituir as aulas de literatura, o objetivo é somar os interesses. E a aula fica mais agradável. Um diferencial são as técnicas de escrita que, às vezes, soam até absurdas. Mas, quando os meninos e meninas começam a escrever tudo se desenvolve. Quero uma aula divertida, uma aula que eu queria ter assistido em minha formação”, afirma.

Uma dessas técnicas é a chamada “hipótese fantástica”. Para trabalhá-la, Yan convida os alunos a escolherem o nome de um objeto e, em seguida, um verbo.  A partir daí, ele une os termos, montando uma pergunta que poderá resultar, enfim, em uma criação literária.

“Vamos dizer que ele escreveu ‘bicicleta’. Em seguida, um verbo: e ele escreve ‘voar’. Façamos, agora, a união dos termos em uma frase: ‘o que aconteceria se a bicicleta voasse?’. Temos aí uma hipótese que pode desencadear uma narrativa fantástica. Um autor que pode ter utilizado essa técnica é o José Saramago em ‘As intermitências da morte’ que é construída a partir de uma hipótese fantástica: o que aconteceria se a morte ‘tirasse férias’?”, explica Yan.

A escritura do conto
No próximo dia 29, Yan dará início a uma oficina voltada para o público universitário, intitulada “A escritura do conto”, também como parte do projeto Semear Palavra. Ela seguirá a mesma linha: estudar a criação e as possibilidades da literatura a partir dos processos relacionados ao ato de escrever – por isso “escritura”. A oficina é coordenada pela Editora da Ufes (Edufes) e tem carga horária de 20 horas. As aulas acontecerão sempre às quintas-feiras, das 14 às 17 horas, na Galeria de Arte Espaço Universitário e contarão com exercícios práticos e discussões em grupo.

Segundo Yan, serão trabalhados cinco tópicos durante as aulas. São eles: 1. O uso da experiência, da observação e da imaginação para contar histórias; 2. Dramatize uma ideia: a história explícita e implícita na narrativa curta;  3. A diferença entre falar e mostrar; 4. A criação da personagem tridimensional; 5. A criação do dilema da personagem.

“Todas são técnicas literárias para desenvolver a narrativa e prender a atenção do leitor. Meu foco será na criação de personagens. Utilizo de leitura de trechos de romances, contos, e partes específicas de filmes. [...] Daí surge o personagem tridimensional, que é o dividido em três aspectos: o físico, o social e o psicológico. Claro, isso serve para abrir a consciência de quem escreve, servir de exemplo para criarmos nossas narrativas. Não há regras para a criação literária”, afirma.

Quem tiver interesse em participar dessa oficina deve se inscrever até sexta-feira (22), no Núcleo de Produção Cultural, localizado ao lado da Galeria de Arte Espaço Universitário (Gaeu), no Campus Goiabeiras da Ufes. Das 15 vagas disponíveis, cinco são abertas para a comunidade. Mais informações pelo telefone 4009-2337.

Bastidores da criação literária
Além de realizar ações formativas, Yan também procura entender, através do projeto Semear Palavra, os processos de escrita de autores contemporâneos. Por meio de uma ação chamada “Filosofia de Escritor”, ele convida escritores para comentarem sua própria obra, a fim de entender melhor o livro a partir da ótica do autor. E tudo isso fica disponível online para quem quiser acessar.

“Queria saber mais do que antecede a obra literária ainda em estado de vir-a-ser e tornar visível essas escolhas tomadas pelo escritor. O legal é que escrever é um processo que ‘consciente’ e o ‘inconsciente’ se interpolam. Quando o escritor senta para pensar nisso, aparecem coisas que nem ele mesmo havia se dado conta. É um exercício interessante”, pontua.

Jorge Verly e Reinaldo Santos Neves são dois dos autores que enviaram textos comentando suas próprias obras. A ideia é poder não apenas permitir a divulgação da obra, mas também montar uma espécie de índice que pode ser utilizado, inclusive, em futuros estudos.

“Há coisas também que só o escritor pode dizer ou apontar. Claro, não me refiro que o leitor tenha que adivinhá-las. Não é isso. Não é uma volta ao ‘o que o autor quis dizer’. Apenas, imagino, é uma forma de ver o outro lado do processo”, explica.

Incentivo a leitura
Por meio do projeto Semear Palavra, Yan tem também como um de seus objetivos estimular e incentivar a leitura. Como pesquisador, escritor e professor, ele tem suas ideias e sugestões para que a educação e a sociedade possam trabalhar melhor o incentivo a leitura.

“Primeiro, de forma geral, o brasileiro lê pouco. Então, pensando no público jovem, uma dificuldade inicial é quando não há o incentivo em casa. Como formar leitores (estou me referindo ao contexto familiar) fora do espaço escolar, naqueles que já teriam, tecnicamente, sido formados e não mais frequentam esse espaço?”, afirma.

Além disso, ele comenta que, ao analisar a relação com a leitura via escola, surgem ainda outros problemas. Entre eles: o próprio currículo escolar, a falta de cuidado com a biblioteca, professores com cargas horárias excessivas e salários baixos dificilmente são leitores. Ele pontua ainda outra questão: a formação dos professores.

“Me formei recentemente e posso dizer: poucos lêem. Falta, talvez, um contato da ‘vida literária’, saber quem está escrevendo e publicando, conhecer os escritores que falam sobre nossos anseios e problemas ‘atuais’. [...]Acho que somar isso, esse contato com os “agentes literários”, é um bom caminho”, sugere.

Yan conclui, enfim, que não há uma única forma de incentivar a leitura e que, na verdade, considera necessário todo um processo de mudança. Eventos na escola, feiras literárias, dinâmicas e leituras em grupo, oficinas, debates, lançamento de livros, melhores salários dos professores são algumas das suas sugestões.

“Lembro que no terceiro ano debatíamos sobre poemas modernistas em sala de aula, tive lá uma professora que era apaixonada pela leitura e conseguia tornar aquilo cativante. Às vezes, a nota final era o que menos importava. Tudo isso é um processo vindo de vários contextos diferentes. É por aí”, diz.

Saiba mais sobre o projeto Semear Palavra acessando aqui sua página no Facebook ou pelo endereço http://semear-palavra.tumblr.com/.

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