Projeto realiza oficinas sobre mídia em escolas do ES

Por 13:48

O Comunicaê é realizado por pesquisadores e alunos da Ufes e busca incentivar a leitura crítica dos meios de comunicação em suas oficinas

Fazer uso de técnicas do campo da comunicação social no processo de aprendizagem, seja na educação formal ou informal, é hoje conhecido como educomunicação. Aqui no Espírito Santo, um grupo de pesquisadores e estudantes decidiu aplicar esse conceito em um projeto de Educação para a Mídia com crianças e adolescentes. Trata-se do Comunicaê, realizado por pesquisadores do Observatório da Mídia, grupo de pesquisa e ação vinculado ao Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Por meio de oficinas de leitura crítica da mídia em escolas municipais da Grande Vitória, o projeto visa a contribuir para a promoção de sujeitos mais conscientes, capazes de interferir em suas realidades. O Comunicaê é coordenado pelos professores doutores Edgard Rebouças e Franciani Bernardes, e pela pesquisadora Esther Radaelli.

Atualmente, os produtos midiáticos têm chegado aos espectadores em uma velocidade mais do que intensa e, por isso, nem sempre os conteúdos são, de fato, questionados e analisados. “Acreditamos na necessidade de se fazer esses questionamentos e de desnaturalizar o que é produzido como uma forma de sermos um público mais ativo e também de irmos atrás de conteúdos de qualidade. [...] Foi dessa inquietação que surgiu o Comunicaê. Queríamos discutir mídia e nada melhor do que fazer isso com pessoas que estão no seu processo de formação. E é ótimo! Porque eles também são muito sinceros e entregues a nossa proposta, que é de estabelecer um diálogo e não fazer uma palestra”, explica Esther Radaelli.

Diálogo e aprendizado
​As oficinas ministradas pelo grupo são divididas em quatro módulos: Jornalismo, Publicidade, Telenovela e Produção Audiovisual, com duração de duas horas cada. A ideia é oferecer os módulos em dias diferentes para uma mesma turma de alunos. “Foi um projeto feito em grupo. Pensamos em pilares para cada tema, discutimos e fomos atrás de exemplos. As oficinas são constituídas basicamente de perguntas e exemplos. Justamente por não ter o caráter de palestra, mas de estímulo à discussão e ao diálogo”, afirma Esther. Os conteúdos são passados em forma de diálogo, sem classificar certos e errados, para que os alunos se sintam à vontade para contribuir. Além disso, no início de cada módulo, é feita uma atividade lúdica que coloque o estudante em contato direto com o tema a ser estudado.

O senso comum sugere que as crianças e os adolescentes pouco sabem sobre como a mídia pode ser capaz de agir em prol de seus interesses privados. Mas o objetivo do projeto Comunicaê é fugir disso e encarar a sociedade de acordo com suas complexidades. “As percepções das crianças e dos adolescentes variam muito conforme a formação de cada um, claro. Mas eles não são bobos não, nada disso. Temos tido discussões muito ricas e um envolvimento muito bacana. E a essência das oficinas é plantar uma semente mesmo, não temos tempo hábil para revoluções de pensamentos, mas tentamos abrir um caminho”, conta Esther. O resultado de algumas dessas conversas pode ser visto nos trabalhos gerados pelo último módulo aplicado, o de Produção Audiovisual, no qual os alunos estão livres para roteirizar e produzir um pequeno vídeo, ao lado dos monitores do projeto.

Um dos módulos estudados é sobre telenovela que, diferente dos outros temas, não tem nenhuma disciplina específica no curso de Comunicação Social. “Queríamos falar de ficção e de como é o diálogo com a realidade. As novelas nos permitem provocar uma série de discussões: aproximação com o cotidiano deles, estereótipos, consumo etc. E é impressionante como eles gostam! É um produto que está muito próximo da vida de cada um, mais até que o jornalismo, por exemplo, pois eles andam vendo muito mais novelas do que telejornais”, afirma Esther.

O Comunicaê começou a ser estruturado em 2011, mas as primeiras oficinas aconteceram no ano passado, com duas turmas da Escola Experimental da Ufes. “Lá trabalhamos com 7º e 8º ano. E esta semana começamos a realizar o projeto na Escola Belmiro Teixeira Pimenta, na Serra”, diz Esther. O primeiro módulo já foi ministrado para duas turmas dessa escola, com as mesmas faixas etárias das crianças presentes nas oficinas piloto.

Currículo escolar
Professores e pesquisadores da área da educação estão em constante debate acerca dos melhores métodos pedagógicos para aplicação do currículo escolar. A própria educomunicação sugere um novo tipo de aprendizagem, por meio da inserção de práticas comunicacionais nos processos educativos. “Muitos assuntos para além das disciplinas tradicionais deveriam estar no currículo. A escola às vezes acaba se afastando um pouco da realidade, o que dificulta o envolvimento dos estudantes. Não temos uma visão de grupo unificada, mas acreditamos sim que a mídia deveria ser um dos temas do cotidiano a estar nas discussões escolares. A gente vive em um mundo puramente midiatizado! Parece lógico”, afirma Esther.

Ainda assim, a pesquisadora pondera que há muito que se discutir sobre o assunto. Uma questão, por exemplo, é pensar no profissional que atuaria com essa disciplina, o educomunicador. Por mais que já exista essa formação, são poucos os cursos que a oferecem. “Existem muitos caminhos e muitos outros que ainda devem ser pensados e formulados. Porém, precisam ser pensados, essa é a questão”, diz.

Formação acadêmica
O Comunicaê é formado por professores do curso de Comunicação Social da Ufes e, também, por pesquisadores e alunos, que estão apenas começando seus estudos sobre mídia.  Esther, que hoje coordena o projeto ao lado de Franciani Bernardes, começou a participar das atividades do grupo enquanto ainda era estudante. “Posso dizer que é uma experiência incrível. A universidade abre muito nosso horizonte, mas a vida abre ainda mais. [...] Dentro da sala de aula são teorias. Agora entender como funciona o conteúdo midiático com discussões acontecendo na sua frente é outra coisa, é o que ocorre discutindo mídias com as crianças e os adolescentes. Faz a gente dimensionar também a responsabilidade que temos como comunicadores sociais, o que é essencial para sermos bons profissionais”, conta Esther.

Muitos e muitas estudantes do curso se envolvem com o Comunicaê, uma delas é Karoliny Siqueira, que está no segundo ano do curso de Jornalismo e é, hoje, bolsista do projeto. “A experiência é super enriquecedora para o meu conhecimento na formação como jornalista. Estou há pouco tempo e, mesmo assim, posso dizer que minha visão em relação à mídia mudou muito. O projeto é muito acolhedor, depois da primeira oficina a gratificação é ainda maior. Sem contar que as crianças também ensinam muita coisa pra gente”, conta a estudante.

Já no final do seu terceiro ano no curso, a estudante de Publicidade e Propaganda, Izabella Rodrigues, participa do grupo desde que o projeto foi apresentado aos alunos, no primeiro semestre de 2013. “Pude contribuir, desde o início, com os conteúdos a serem levados para a discussão com as crianças, na aplicação das oficinas nas escolas e, depois, na avaliação dos resultados obtidos e reformulação e readaptação do projeto para momentos futuros. [...] Perceber como crianças vêem o conteúdo que é, a todo momento, direcionado a elas, o que elas absorvem, o que elas deixam passar, o que elas compreendem etc., é muito importante e, muitas vezes, surpreendente para nós, estudantes. Sem dúvidas, poder estar construindo o Comunicaê ajuda diretamente para a minha construção pessoal e profissional também”, afirma Izabella.

Para conhecer melhor o projeto Comunicaê, bem como os vídeos produzidos em oficinas, acesse http://grupocomunicae.wordpress.com/.

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