Um vácuo cheio de infinitos no novo livro de Caê Guimarães

Por 14:03

Publicado pela Editora Cousa, “Vácuo” é o terceiro livro de poesias do autor e será lançado na próxima terça-feira (9), em Vitória

Vácuo é “o que não contém”, diz o dicionário. É quando não te respondem, diz a cultura popular. É algo “entre o início e o fim / a que chamamos de meio”, versa o escritor Caê Guimarães. Entre tantas coisas e definições, “Vácuo” é, também, o nome do novo livro de Caê, que será lançado na próxima terça-feira (9), a partir das 19h30, no Doca 183, em Vitória. Publicado pela Editora Cousa, o livro conta com capa de Gustavo Binda sobre ilustração de Lorena Louzada, posfácio de Francisco Grijó e foto de Fabricio Zucoloto.

“O vácuo ao qual me refiro no título do livro refere-se aos pequenos espaços, infinitesimais, existentes, ao menos na abstração, entre pessoas e pessoas, pessoas e objetos, objetos e objetos. Até mesmo entre dois vácuos (risos). Mas acontece que este espaço infinitesimal, este nano naco do vácuo, pode comportar galáxias inteiras”, conta o escritor. E é exatamente isso o que Caê nos apresenta em seu livro: galáxias inteiras. Os textos de “Vácuo” funcionam como pequenas portas para universos repletos de sentimentos, pensamentos e intenções.

Forma e conteúdo
Quinta obra do autor, o livro reúne textos produzidos entre 2007 e 2014, com uma liberdade poética que traz poemas longos, curtos, concretos, com e sem rimas. “Subverter a forma sempre me interessou e foi natural. Mas nos últimos seis anos, comecei uma série de poemas concretos, ou de inspiração concreta, aos quais chamo poemóbiles, uma referência clara ao Augusto de Campos e ao Julio Plaza. [...] Outro flerte recente rendeu o inédito Livro de Haiquases, com 70 haicais compostos no mesmo período. Estes ecos, como outros, estão no ‘Vácuo’, ainda que a física apregoe que o som não se propaga no vácuo (risos)”, conta.

Tais quais as galáxias, os textos de Caê evocam uma infinidade de assuntos, como tempo, amor e religião.  “Os temas, vida, morte, amor, sexo, tempo, finitude, o mistério das divindades, são os mesmos que movem as mãos de poetas e escritores desde o princípio dos tempos. O que eu poderia chamar de força motriz - ou seja, o que me impele a escrever - é uma somatória disso tudo. Às vezes, penso em um tema por dias ou semanas a fio. Às vezes, o tema vem embutido em uma melodia interna que me leva a escrever”, explica. Esse é o terceiro livro de poesia do escritor, cujos textos dialogam com a obra de diversos poetas como e.e.cummings e Drummond.

Admirador de uma série de escritores, especialmente do poeta João Cabral, Caê concorda com o escritor português Antero de Quental que dizia “escrever é um acidente biológico” e completa: “escrevo para ludibriar a certeza da finitude e a ideia da morte”. O autor nasceu no Rio de Janeiro e viveu a maior parte da vida em Vila Velha, mas foi em Vitória que estudou e realizou a maioria de suas atividades profissionais e artísticas. E a encantadora ilha capixaba, é claro, está presente também em seus poemas.

“Quando uma cidade se torna parte da sua história, ela influencia, vira fonte de inspiração para o que você faz. [...] O Vácuo tem referências/inspirações de Ventalló e Córdoba, na Espanha, além do Rio, minha cidade natal, e de Vitória e seus encantos. A começar pelo nome. Vitória é o nome da minha mãe. (risos) É uma ilha. Uma cidade com um porto dentro dela – um porto que cresce de forma desordenada e parece engolir tristemente um pedaço da cidade e a sua memória. [...] O que Vitória provoca em mim, muito mais do que a vontade de enaltecê-la, é a tentativa de apreendê-la sem prendê-la para não perdê-la”.

As palavras em ritmo
Os textos de “Vácuo” possuem uma espécie de sonoridade. As palavras parecem ter seu próprio ritmo, como no poema chamado “no salão de bilhar”, no qual Caê faz uma brincadeira com a cantiga popular “Se essa rua fosse minha”. O escritor conta que pensa nessa sonoridade de forma natural ao escrever e explica:

“Para o Ezra Pound um poema é composto por melopeia, que é o aspecto sonoro e musical; fanopeia, ou seja, os elementos imagéticos; e logopeia, a dança do logos entre as palavras. Tenho sempre estes elementos em vista. E a melopeia, realmente, se manifesta com força no que escrevo. [...] Volto ao Décio Pignatari que dizia que poesia tem mais parentescos com a música e as artes plásticas do que com a literatura, como é de se supor”.

Algumas dessas palavras são recorrentes nos poemas de “Vácuo”, como chuva, lágrima, rio, oceano. Para Caê, elas são parte de seus arquissemas. O poeta Manoel de Barros dizia que arquissemas são palavras ancestrais que nos comandam subterraneamente e que, no fim, norteiam a escrita do poeta por toda a vida.

“Cada poeta teria aproximadamente 12 arquissemas. No meu caso, há também o uso recorrente das palavras veios, fios, lâmina, lua, ampulheta, uivo, vidro, tinto. Então, essa recorrência são meus arquissemas expostos na carne do poema, porque são a própria carne que mantém o esqueleto de pé. O Manoel de Barros dizia uma coisa linda a esse respeito: ‘Essas palavras chaves orientam os nossos descaminhos e nossa obra, a fim de que não fujamos de nós mesmos ao escrever’. Acredito muito nisso e reproduzo meus arquissemas com consciência do papel que eles têm no meu trabalho”, afirma o escritor.

Lançamento
“Vácuo” será lançado pela Editora Cousa na próxima terça-feira (9), a partir das 19h30, no Doca 183, localizado na Rua Gama Rosa, no Centro de Vitória. No dia, o livro será vendido a R$30.

“Ler poesia é mergulhar em um vasto universo de inutensílios, em uma maravilhosa inutilidade que ‘reagrupa os neurônios do leitor em novas conexões’. A frase é do grande poeta Fernando Achiamé e está na epígrafe do ‘Vácuo’. Então, convido os leitores do Sou ES a mergulhar neste vácuo. E fico na torcida por esse rearranjo neural na cabeça de quem ler o Vácuo”, diz Caê.

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