‘Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa’ estreia em Vitória

Por 13:46

O road movie brasileiro entrou em cartaz esta semana, no Cine Jardins. A produção independente conta a jornada de dois homens em busca de novas experiências

“O cinema é a forma que encontrei de me expressar e de colocar questões”, afirma Gustavo Galvão, diretor e co-roteirista do longa-metragem “Uma dose violenta de qualquer coisa”, filme que entrou em cartaz, nesta semana, no Cine Jardins, em Vitória. A história do longa nos apresenta a Lucas e Pedro, que, depois de se conhecerem em uma lanchonete de beira de estrada em Minas Gerais, decidiram seguir viagem pelo interior do Brasil. O road movie descreve uma delirante jornada de descobertas de dois homens que, mesmo muito diferentes, seguem o caminho juntos, em busca de novas experiências.

“Tudo começou com a ideia para uma cena, em 1994. Fui puxando o fio, como costumo dizer, para ver até onde eu iria com essa cena. Passaram-se 13 anos até fechar a primeira versão do roteiro”, conta o diretor. A ideia era jovem, assim como Gustavo era na época. Com o passar dos anos, as transformações e as novas vivências do diretor contribuíram para a construção da história. “E aí que percebi onde queria chegar: em um filme que tratasse de pessoas ‘atropeladas’ pela necessidade da mudança. Foi um processo que se estendeu até 2013, até os últimos instantes da montagem. O filme foi construído à medida que eu crescia”, afirma.

O baixo orçamento não impediu Gustavo de concluir o projeto que há anos habitava seu imaginário. Ele conta que, durante muito tempo, pensou que precisaria de R$ 1,5 milhão para fazer o filme. “Tive muita dificuldade para captar recursos para o filme, talvez por não ceder ao politicamente correto com ele. Uma conversa mudou o rumo dessa história: o consultor de roteiro, o argentino Miguel Machalski, me convenceu a fazer o filme com a metade do dinheiro”, afirma.

Gustavo conseguiu captar R$ 700 mil do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e aceitou o desafio de produzir um road movie com metade do orçamento ideal. “Ao fazer isso, acabei me reconectando com os filmes que gosto, em especial com o cinema marginal brasileiro e o cinema de baixo orçamento. Acabei tendo que completar um pouco do próprio bolso, mas valeu o investimento: fiz o filme que queria e sinto nos membros da equipe um orgulho imenso pelo resultado”, conta o diretor. Para ele, a vantagem de uma produção independente como essa é só uma: ter o controle total de suas ações, podendo experimentar sem medo. “É algo tão valioso que compensa todas as desvantagens”, diz.

Elenco
O filme conta com direção de fotografia de André Carvalheira; direção de arte de Valéria Verba; montagem por Marcius Barbieri; e produção pela 400 filmes. Além disso, a trilha sonora original do filme é assinada por Ivo Perelman, um dos mais conceituados jazzistas da atualidade. O elenco conta com atores que têm despontado no cinema brasileiro, como Vinícius Ferreira, e também com atores já consagrados, como Leonardo Medeiros.

“Escrevi o personagem principal, Pedro, especificamente com o Vinícius em mente. Também pensava em Leonardo Medeiros e em Catarina Accioly quando criava os personagens Jesus e Virgínia, respectivamente. Costumo trabalhar assim, fica mais fácil de visualizar o papel”, conta Gustavo. Já o caso de Marat Descartes, que interpreta Lucas, foi completamente diferente. “Escrevi pensando em pessoas que eu conheci, mas não sabia quem poderia interpretar esse papel”, conta. Ao trabalhar o ator em seu filme anterior, o “Nove Crônicas para um Coração aos Berros”, percebeu que Marat seria capaz de ir fundo no papel de Lucas, uma releitura da figura do cafajeste. “Ele é um dos melhores atores com quem tive o privilégio de trabalhar. Aliás, dirigir todo esse time foi uma das experiências mais estimulantes que tive na vida”, diz.

O diretor
“Já com 16 anos eu pensava em estudar cinema. Não tinha condições de sair de Brasília à época do vestibular e o curso de cinema da Universidade de Brasília estava fechado, então acabei cursando jornalismo”, afirma. Aos 26 anos, Gustavo decidiu seguir carreira no audiovisual e se especializou em cinema pela Escuela Superior de Artes y Espectáculos, em Madri. Estreou como realizador em 2002, com o curta “Emma na Tempestade”. Atuou, pela primeira vez, como diretor de um longa no filme “Nove Crônicas para um Coração aos Berros”, de 2012. “Uma dose violenta de qualquer coisa” é o segundo longa-metragem no qual Gustavo atua como diretor, mas ele sempre esteve envolvido no meio audiovisual, produzindo diversos curtas.

“Foram sete curtas entre 2002 e 2008, que me ensinaram como trabalhar com atores e a pensar criativamente com a câmera, a luz, o som, até mesmo a produção. A passagem do curta para o longa foi mais que uma escola. A primeira grande diferença foi o trabalho com o roteiro: um longa precisa ter fôlego. Outra diferença considerável é a forma de lidar com os atores, eles exigem mais do diretor num filme que dure tanto tempo”, conta. Mesmo com as dificuldades de produção e distribuição de filmes no Brasil, Gustavo afirma que o que o motiva é poder continuar se expressando e colocando questões por meio de seus filmes.

Distribuição nacional
“Uma dose violenta de qualquer coisa” não foi só produzido de forma independente, mas também está sendo distribuído da mesma maneira. Gustavo conseguiu vencer as barreiras de distribuição de filmes no Brasil e, “com pouco dinheiro e o apoio de pessoas próximas”, tem conseguido levar seu longa a dezenas de cidades. “Não bastaria colocá-lo na internet, quero mostrar na sala de cinema, a experiência da apreciação coletiva e a projeção numa sala escura são fundamentais nesse filme, que provoca reações diversas – seja pelas características técnicas, seja pela trama em si e as cutucadas que ela dá na caretice e no politicamente correto. É importante ter produtos diversificados nas salas”, afirma Gustavo.

Nesta semana, o filme estreia em Vitória e, também, em Fortaleza e em São Luís. E, na semana que vem, “Uma dose violenta de qualquer coisa” chega à Campinas. Ao todo, são 15 as cidades que já receberam o filme. “Espero que o filme fique muito mais tempo em Vitória! Pode ser que fique mais. Na verdade, depende do público que fizermos no primeiro fim de semana: se for bom, o exibidor pode se animar a mantê-lo por mais uma semana ou duas”, explica Gustavo.

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