Luke Cage: uma ode à cultura negra em forma de seriado

Por 14:43

Texto originalmente publicado no site Séries por Elas.

Harlem é um bairro localizado em Manhattan, uma das principais  regiões da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ele é historicamente conhecido por ser um grande centro cultural do movimento negro, onde diversos artistas e ativistas se uniram para afirmarem o poder e a riqueza da cultura negra. E é lá onde a terceira série do universo Marvel produzida pela Netflix, lançada no último dia 30, Luke Cage, se passa.

Nos primeiros episódios, é possível ver Luke (Mike Colter) tentando se reinserir na sociedade após uma fuga da prisão – de onde ele sai com habilidades sobre-humanas: ele tem uma pele indestrutível (o que é bastante simbólico, já que Luke é negro). Ele trabalha como ajudante na barbearia do Pop (Frankie Faison), que é considerado um lugar neutro entre as brigas de gangues do bairro. Lá, os meninos se reúnem para dar um up no visual enquanto falam sobre basquete, seus livros favoritos e por aí vai. Em um simples diálogo, a série faz inúmeras referências a nomes da cultura negra, como Michael Jordan e Kobe Bryant, do basquete, e os escritores Donald Goines e Chester Himes. Muhammed Ali e Nelson Mandela estão, aliás, na lista de nomes de quem não precisa pagar pelo corte, colada na parede da barbearia.

Um parênteses: desconfio que a série se passa nos dias atuais, pois além de citarem o Instagram nas conversas, no segundo episódio Luke está lendo o livro “Little Green”, de Walter Mosley, lançado em 2013. Outro destaque deste início do seriado é a personagem de Mercedes “Misty” Knight (Simone Missick), uma policial insistente e obstinada a resolver os problemas do Harlem – que parece se resolver por conta própria, o que instiga ainda mais a policial.

Pop é um dos únicos que sabe sobre a pele indestrutível de Luke e sempre o aconselha a servir a população como os outros “super-heróis”, porém nosso protagonista quer apenas ter uma vida normal e pacata, sem muitas preocupações. Mas é óbvio que no Harlem isso não seria possível. A criminalidade começa a tomar os mais jovens e Luke percebe que até mesmo o governo está envolvido com os criminosos, resultando em uma violência generalizada. Um dos “vilões” em destaque neste início é o Cottonmouth (Mahershala Ali) [é engraçado ler a legenda dizendo “Boca de Algodão”, rs] que é inclusive dono de uma boate de jazz.

É interessante assistir cenas violentas ao som de muito jazz em vozes potentes como a da atriz e cantora Faith Evans que participa do segundo episódio da série. Evans, inclusive, é viuva de um dos rappers mais influentes de todos os tempos, The Notorious B.I.G, que é claramente reverenciado pelo personagem de Cottonmouth com um gigantesco retrato em seu escritório.

A música, então, acaba se tornando outro personagem da trama, dando um tom artístico a cenas que são mesmo um soco no estômago. Outra prova da importância da música para o seriado é que todos os episódios são nomeados com títulos de músicas da dupla de rap Gang Starr (é verdade, meu povo, eu conferi!). Tudo isso em memória a uma época em que a cultura negra encontrava seu lugar, ao mesmo tempo em que criminalidade eliminava os seus jovens.

O seriado faz ainda referência ao período do Renascimento do Harlem, que ocorreu nos anos 1920 e deixou um legado impressionante de arte, música, dança, literatura, o intelecto, a filosofia, e talvez mais importante, dos direitos civis. Criada por Cheo Hodari Coker, Luke Cage conta com 13 episódios em sua primeira temporada e apresenta uma trilha sonora regada a R&B e hip-hop – que, inclusive, já foi completamente liberada pela Marvel no Spotify. Clique aqui para conferir essa belezura!

Ver o nascimento de um herói negro em um bairro negro lidando com vilões da vida real é incrível e tudo fica ainda melhor com uma trilha sonora tão rica como é a de Luke Cage. O personagem parece que não vai conseguir se manter à parte dos conflitos do Harlem. Como será que a polícia, os criminosos e os moradores vão lidar com isso? Só vendo pra saber!

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