“Perfeita é a Mãe” questiona a maternidade perfeita, mas reforça outros estereótipos

Por 14:36

Texto originalmente publicado no site Séries por Elas.

O filme Perfeita é a Mãe, originalmente Bad Moms, protagonizado por Mila Kunis, Kristen Bell e Kathryn Hahn, entrou recentemente para o catálogo da Netflix e me fez dar boas risadas. Mas o fato de ter achado graça de algumas cenas não me impediu de refletir sobre a representação das mulheres no filme dirigido por Jon Lucas e Scott Moore (Se Beber, Não Case!).

Em Perfeita é a Mãe, acompanhamos a rotina de Amy (Mila Kunis) que, além de trabalhar em uma empresa de cafés, cuida dos filhos e da casa sozinha e ainda tem que lidar com um marido apático. Depois de se sentir sobrecarregada e de estar cansada de ter que ser uma mãe perfeita, ela decide abrir mão de todas as suas responsabilidades e acaba se aproximando de Kiki (Kristen Bell), uma mãe, dona de casa, completamente submissa ao marido; e de Carla (Kathryn Hahn), mãe solteira que, por dar prioridade a sua vida particular, acaba deixando o filho de lado.

A princípio, achei incrível que a maternidade real e a “múltipla” jornada de trabalho da mulher fossem os temas de uma comédia americana como essa que é quase um besteirol. Desconstruir a ideia de que ser mãe é um mar de rosas é essencial para compreender e transformar as realidades das mulheres do nosso mundo. Pensei na simplicidade em que as questões foram tratadas e em como as reflexões poderiam chegar a diversas famílias, nas mais diferentes configurações. Porém, depois de analisar com mais calma, pude perceber que o filme, ao tentar desconstruir alguns esteriótipos, reforça outros – como por exemplo o da “mãe solteira” como “a que dá em cima do marido de todo mundo”. Tipo, sério?

Além disso, em nenhum momento a solução apresentada para a maternidade difícil que as personagens viviam foi conversar com suas famílias. Nem mesmo no desfecho que é quando, normalmente, as comédias ganham um tom mais sentimental. Entre as soluções apresentadas estão encontrar um novo amor e trocar de lugar com o marido tornando a paternidade dele difícil. O desfecho mais agradável, pra mim, foi o de Carla que, após toda a trama, decidiu estar mais presente na vida do filho – uma tentativa de quebrar o esteriótipo reforçado pelo próprio filme: o da mãe solo ausente.

Ao retratar apenas mulheres que não conseguem lidar com suas instabilidades emocionais sem destruir um supermercado, negligenciar os filhos ou ficar obcecada pelos afazeres escolares, o filme acaba dando lugar ao sexismo. Afinal, “mulheres são sempre descontroladas e são muito emocionais”, certo? Não há de ser mentira que algumas de nós sejamos, mas não ter uma só personagem que fuja desse padrão na história é preocupante. Parece que, por se tratar de um besteirol, há uma espécie de “licença poética” para abusar do sexismo como um gatilho de risadas mesmo, na intenção de deixar tudo cômico e surreal – o que me fez pensar se o filme é realmente um elogio ao empoderamento feminino ou se é um sátira.

Apesar disso, é interessante ver a união feminina entre o trio principal. Elas são mulheres independentes que se apoiam, porque se entendem. Passam por preocupações semelhantes, mas também compartilham momentos únicos da maternidade umas com as outras. Juntas, tentam superar o momento difícil que é encarar suas infelicidades enquanto mães. E,  pra mim, de fato, não há nada mais poderoso do que a união e o apoio mútuo entre mulheres. Como antagonista, elas têm outro trio de mães completamente obcecadas pelos afazeres escolares. A interação entre esses dois grupos me fez dar boas risadas, apesar de não ter achado o atrito entre eles muito diferente do que já vi em comédias colegiais.

Em Perfeita é a Mãe, os homens estão em segundo plano e isso é ótimo se pensarmos no protagonismo feminino. Porém, o filme peca pelo excesso. O marido de Amy é tão, mas tão apático que nem mesmo consegue lidar com um divórcio. O que na vida de muitas pessoas é um período delicado e difícil perde toda sua profundidade ao ser deixado de lado para dar lugar à busca de Amy por um novo homem que a faça feliz. Já o marido de Kiki é um homem machista que a obriga voltar para casa para cuidar dos filhos, porque “esse é o seu trabalho”. Até o final do filme, não temos sinais de que ele mudou sua forma de pensar. O desfecho só nos mostra que Kiki conseguiu inverter os papeis. Mas não exatamente que conseguiu chegar a um acordo com seu marido sobre uma maternidade e uma paternidade responsáveis.

Um último ponto positivo é que, ao final, o filme apresenta relatos sobre maternidade feitos pelas atrizes e por suas respectivas mães. Enfim, Perfeita é a Mãe é divertido, protagonizado por mulheres, cheio de cenas clichês de filmes de comédia, mas que podem arrancar algumas risadas. O longa cumpre seu papel de questionar o ideal da mãe perfeita, mas falha em desconstruir esteriótipos. Apresenta um roteiro comum para um tema tão importante que é a maternidade no século XXI. Porém, se pensarmos na franquia American Pie e seu modelo de comédia besteirol, Perfeita é a Mãe até que representa um avanço para o gênero com um histórico tão sexista.

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